Beit Midrash

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sexta-feira, 10 de junho de 2011

Jesus, o Império e o Judaísmo - Parte III

III – A realidade do judaísmo num mundo romanizado.

            A definição de um judaísmo estreitamente monolítico enfrenta sérias contestações no mundo acadêmico atual. E não são poucas as dificuldades em aceitar a velha e tradicional fórmula usada pelos teólogos do NT, tanto católicos quanto protestantes, para convencer o mundo cristão de que Jesus se opunha ao judaísmo do mesmo modo como a Lei se opunha ao mandamento do Amor radicalizado nas pregações de Jesus. Essa proposta, que até pouco tempo atrás catalisava outras premissas que davam sustentação à fé cristã. Elas se encontravam em manuais de teologia. Esse universo retratado do Jesus X Judaísmo já não funciona mais, visto ser uma imagem construída sobre a auto-afirmação da Igreja sobre o judaísmo.
            A definição do judaísmo, tomado apenas como uma religião do mundo antigo, levanta sérios problemas. É tendência comum os intérpretes modernos assumirem por “judeu” a identidade dos personagens do NT, tais como Herodes o Grande, Arquelau, os Sumos-Sacerdotes Anás e Caifás, o fariseu Gamaliéu e o próprio Jesus. Ao fazer tais generalizações, todas as “diferenças e interesses políticos desaparecem” (p.15). Esse enfoque de um judaísmo padrão serve mais para reforçar a oposição de Jesus ao judaísmo como um todo.        
O problema em definir judaísmo para Grabrielle BOCCACCINI:
“Os séculos da revolta macabaica [168 aC] à guerra judaica [66-74 dC] não foram nem o ponto conclusivo de um judaísmo monolítico já plenamente estabelecido, antes de Jesus, nem o ponto inicial de um processo de evolução linear que naturalmente tenha desaguado no estágio rabínico. Esses séculos foram uma era de diversidade e transição (“judaísmo médio”) de muitas correntes judaicas em competição, na qual tanto o Cristianismo quando o Judaísmo Rabínico tiveram, digamos, suas origens em raízes comuns orientadas pelo pensamento judaico durante o período pós-exílico” (Roots of Rabbinic Judaism, p. XIV).      
            Um dos problemas para definir Judaísmo é porque se deve levar em conta não apenas sua realidade religiosa fragmentada, alienada da situação histórica do longo e complexo período de transformações porque passava toda a costa Mediterrânea por mais de seis séculos antes de Jesus. Portanto, Judaísmo não é um elemento isolado ou fora de um conjunto de fatores políticos e sociais que também estavam em processo de transformação. Trata-se de um grave equívoco tentar entender o judaísmo sem relacioná-lo às condições que ajudaram a forjar as variantes de “judaísmos” que nasceram desse cenário.   
Roma ofereceu ao Ocidente seu “Salvador” do mundo. Caiu Júlio César Otaviano (também conhecido como Cesar Augusto ou Otávio Augusto - 27 aC – 14 dC), filho adotivo de Julio Cesar, foi o primeiro imperador romano. Com a idealização da Pax Romana, promoveu um processo de “pacificação” universal que serviu para alicerçar e garantiu o poder imperial baseado na imposição da paz a qualquer custo. A nova ordem se impunha por todo Mediterrâneo, promovida pela política de submissão dos povos bárbaros e na morte aos rebeldes e opositores. A prosperidade de Augusto era simbolizada pela submissão em troca da proteção do estado. A manutenção da ordem era retratada com grandes eventos públicos nos festivais em praça de centros urbanos. Logo ficara evidente o poder manipulador do Império em demonstrações e eventos populares, conhecidos como “pão e circo” para controlar povos subjugados e impedir a “desordem” social. O culto pessoal ao imperador tinha motivação religiosa e também contribuía para domesticar as orlas bárbaras.
            Nada mais anacrônico do que a civilização da Pax romana governada pelo espírito de violência legalizada sob a bandeira do exército romano. A paz era controlada pela violência e o derramamento de sangue dos povos que recusavam lealdade à dominação. A brutalidade, o terrorismo e a repressão foram recursos sistematicamente empregados para combater rebeldes e bandidos de toda espécie. A força bruta e a violência tinham a legitimidade do estado, sendo usado de modo sistemático nas províncias romanas, especialmente depois da conquista da Judéia por Pompeu, em 63 aC. Além desse toque politizador da Terra de Israel ocupada militarmente por Roma, a história do próprio Jesus encontra-se inserida na pátria judaica romanizada.
       

domingo, 5 de junho de 2011

Jesus, o Império e o Judaísmo - Parte II

 A Proposta de Richard HORSLEY no seu Jesus e o Império.

A idéia central da obra de Richard HORSLEY é mostrar Jesus como um profeta que dedicou sua vida a pregar uma revolução social na Palestina, assumindo características que o fizeram se aproximar das tradições proféticas de Moisés e Elias.
A tese principal defendida por HORSLEY, partindo do estudo do evangelho de Marcos e da Fonte Q, está em que Jesus promoveu uma revolução social na pátria judaica. Ele “liderou um programa de renovação do povo, e também pronunciou a sentença de Deus sobre os governantes da nação, sobre os romanos e sobre os seus representantes em Jerusalém, a face que a ordem imperial romana apresentava à população da Palestina” (p.85).
Assumindo a condição de Profeta, e tendo se dirigido aos camponeses no entorno do Lago da Galiléia, Jesus dedicou sua vida à causa de uma grande transformação capaz de levar o povo camponês da Galiléia a uma “renovação pessoal e comunitária” (p.85). Estava convicto de que sua missão teria efeitos decisivos a ponto de reverter a situação de opressão a que essa gente estava submetida. Por isso, “Jesus se dirigiu aos pobres camponeses de seu tempo, subjugados pelo cruel domínio do Império Romano e de seus associados locais da elite herodiana e judaica, conclamando-os para uma revolução que só teria sucesso se partisse da conscientização da situação de opressão em que viviam” (Airtonjo).
“Segundo Horsley, Jesus só pode ser compreendido dentro do contexto do imperialismo romano de sua época, e a sua pregação da chegada do "reino de Deus" significa a expectativa da libertação política e social aqui e agora, que na tradição camponesa, Deus providenciaria para aqueles que eram fiéis à aliança” (ver www.airtonjo.com). Até recentemente os manuais de teologia justificavam a originalidade do programa de Jesus enfatizando seu ministério público em contraste com as matrizes religiosas de suposto “judaísmo legalista” sob o patrocínio do farisaísmo. Visto sob o prisma da oposição radical à Lei/Tora, o fenômeno Jesus passou a ser lido como reformador da estrutura religiosa de um judaísmo decadente, legalista e vazio para a edificação da nova Religião do Amor. Desta premissa evoluíram construções teológicas distorcidas sobre um Jesus hostil à matriz judaica na qual viveu a toda sua vida.
Ao superestimar a excentricidade exclusivista do comportamento religioso-espiritual de Jesus, e a negativa da sua atuação política na sociedade, abriu-se caminho para um amplo desenraizamento da ação política no ministério público. Durante muito tempo, esse tipo de leitura despolitizadora desferiu sérios golpes sobre o Jesus histórico. Seu ministério era transportado para uma divisão entre dois mundos antagônicos: o judaísmo o cristianismo helenista.
            Ao oferecer pistas para a recuperação do Jesus histórico, HORSLEY encontra nos textos do Evangelho de Marcos e nos ditos da Fonte Q, elementos da dinâmica participativa de Jesus no amplo contexto social judaico: religião, política e economia. Tal inserção nos obriga a dar a devida atenção à força política de sua mensagem. O Jesus despolitizado tornou-se em nossos dias uma tendência ideológica poderosíssima que, infelizmente, predispõe o leitor a separar Religião da Política e da economia facilitando, assim, “reduzi-lo a uma mera figura religiosa” (p.12). Esse esforço de proteger Jesus contra a contaminação dos elementos “profanos”, desassociando-o da política e da economia, é uma tendência do “individualismo ocidental” visando facilitar sua apropriação.    
O passo seguinte á despolitização do ministério público de Jesus consiste na “domesticação” que insiste na livre apropriação de atitudes que refletem a imagem dócil de um pacifista. Ao lançar mão da apologia para reforçar um messias preocupado com o mundo espiritual, toda a agenda política fica claramente comprometida na sua mensagem. Particularmente notáveis a esse respeito são as declarações de Jesus: Dai a Cesar o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus e amai os vossos inimigos. Tais declarações poderiam sinalizar para um Jesus nada comprometido com a situação política da Judéia romana. O posicionamento frente aos tributos a Roma passava também o modo de se posicionar diante da Religião, já que a manifestação do domínio imperial romano através da cobrança de impostos servia de recado à população sobre quem era o dono da terra. Então, parece incabível aceitar que Jesus, assim como a maioria de seu povo, não estivesse rejeitando o Império tendo Deus como único Senhor!
Na luta pela renovação da aliança com Deus, Jesus se posicionou contra os dirigentes que governavam a Galiléia-Judéia, dirigindo, sobretudo, aos pobres camponeses de seu tempo que sofriam o jugo da dominação imperial romana. Como profeta de seu tempo, Jesus convocou esse povo para uma revolução social para a superação da opressão romana. Na mensagem captada nos discursos da Fonte Q, Jesus mostra um “Reino de Deus” presente entre os pobres. É para estes que o Reino é oferecido em forma de multiplicação de alimentos, remissão das dívidas, cooperação mútua, curas e milagres (Q 6,20-49). Ao propor a renovação para estes pobres, o Reino também mostra que os dirigentes e os poderes locais serão todos julgados e condenados por Deus (p. 85).  
A exemplo da Fonte Q, o programa de Jesus, no Evangelho de Marcos, expõe o movimento de seus primeiros seguidores em oposição ao Império, bem como ao regime de clientelismo exercido pelos governantes locais.
A principal alternativa no programa de Jesus baseia-se na pregação de uma renovação comunitária da família e clãs tradicionais inspirados nos moldes da antiga aliança de Israel com Iahweh. Ao se dirigir aos camponeses e às aldeias no entorno do lago da Galiléia, Jesus estava convencido da eficácia de um movimento de resistência e protesto tal como as tradições populares dos profetas bíblicos fizeram. Numa terra romanizada, socialmente assolada pelo desmantelamento das instituições, a alternativa era revigorar os antigos modelos de integração comunitária. Nas aldeias agrárias da Galiléia, a FAMÍLIA fornecia, pois, um ambiente singular usado para reeducar a consciência coletiva. É bem possível que nesse contexto é que emergem as “comunidades semi-autônomas cuja forma político-religiosa de administração era a assembléia da aldeia, Kenesset, dirigida por anciãos locais” (p.66). De um lado, os governantes mergulhados num mar de corrupção e privilégios, de outro, a imensa maioria da população, refém das altas taxas de impostos e tendo que produzir para sustentar as classes dirigentes. Eles estavam divididos por um enorme abismo social.      
A articulação entre as duas realidades, Roma e Estados Unidos, é apresentada na primeira parte do livro como uma crítica aos efeitos da distorção da despolitização de Jesus pela sociedade norte-americana. Ao falar da “NOVA DESORDEM MUNDIAL”, nas primeiras páginas (pp.7-20), HORSLEY se refere ao atual “Império Norte-Americano”. Ele arrisca traçar um paralelo entre o antigo Império Romano, em seu ápice, e o Império Americano de hoje. E conclui que ambos se tornaram opressores de povos subjugados, e em tom profético, ousa dizer que assim como a Antiga Roma, também a América cairá em desgraça.
 Sem constrangimento, HORSLEY aponta as contradições presentes na sociedade americana. Nas origens da colonização, os colonos americanos se orgulhavam de se inspirarem nas histórias da Bíblia para lançarem seus ideais de “Povo Eleito”, fugindo da opressão do novo Faraó, Jorge III, para buscar a liberdade na nova Terra Prometida da América. A figura de Jesus parecia inspirar novos movimentos de libertação e criar uma sociedade mais justa e livre dos opressores externos.
Trata-se, pois, de uma frustrada tentativa de se apropriar indevidamente de tradições do povo bíblico com intuito de legitimar a dominação atual. É, no mínimo, irônico que os fundamentos religiosos do capitalismo norte-americano, estampados nas cédulas do dólar, revelam o esforço para promover a relação entre Deus e o mercado: “In God we trust” (Em Deus nós confiamos). Esse mesmo sentimento religioso puritano está presente no hino nacional: God Bless America. Difícil mesmo é perceber qual é o grau de comprometimento dos ideais norte-americanos de liberdade com a proposta do Reino de Deus proclamado por Jesus nos evangelhos. Ora, “os americanos passaram a ver-se como a nova Roma” e “os pais fundadores consideravam-se instituidores de uma República à imitação da antiga Roma” (p.9). Não consigo ver na proposta de se inspirar na herança bíblica do Êxodo para criar um ideal de democracia e liberdade outra coisa senão a distorção dos propósitos do Reino de Deus para fins de legitimar uma nova ideologia de imperialismo, disfarçada sob leitura despolitizadora de um Jesus “domesticado”.   
Em sua identidade, “os americanos passaram a ver-se como a nova Roma”. E "ao cultivar a 'virtude republicana', a busca do bem da sociedade como um todo, os líderes políticos da nova nação pretendiam ansiosamente evitar os erros dos antigos romanos". Contudo, "parece algo totalmente diferente da identidade originária dos americanos - um povo bíblico praticando a virtude republicana romana - o fato de os Estados Unidos terem se tornado recentemente a única superpotência remanescente" (p. 9).
As coisas ficaram mais complicadas depois dos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, quando os americanos foram obrigados a se questionar porque os outros povos os odeiam tanto, sendo que essa mesma pergunta já era feita pelos povos sobre os americanos: “porque os americanos nos odeiam”?
Horsley lança, pois, a provocação àqueles que fizeram de Jesus uma mera figura religiosa, despolitizado em sua ação, reduzido a um sujeito sem significado político, alguém incapaz de causar qualquer ameaça às instituições de seu tempo. Só não conseguem explicar a embaraçosa situação causadora da morte de Jesus. Porque um sujeito tão inofensivo deveria ser morto na cruz romana? Para evitar tocar esse problema, Jesus sofreu um processo de domesticação política, tornando-se alienado dos problemas que tanto infligiam seu povo oprimido pela mesma Roma que o executou.
Olhando de cima da pirâmide social, Jesus é "uma figura que está na origem de uma religião a partir de outra, o surgimento do cristianismo a partir do judaísmo" (p. 12). Ou pior que isso, um homem de índole religioso que odiava se envolver em política. Nada mais cômodo para quem vê essa realidade sob a ótica do opressor, da vitória do cristianismo sobre o judaísmo depois de Constantino! Esse construto teológico, baseado na superioridade, porém, contradiz as formas improvisadas de movimentos de Jesus sugeridos nos evangelhos. Os seguidores desse movimento sofreram perseguições por conta do ideal de Reino de Deus que era defendido, como a prática da justiça, o perdão e a destruição dos poderes diabólicos que se manifestavam na opressão dos governantes. Se, no século I, idéias como essas incomodaram as autoridades levando-as a eliminarem pessoas como Jesus, então “não temos mais condições de ficar sossegados com essas representações domesticadas de Jesus. Não podemos mais ignorar o impacto do imperialismo ocidental sobre povos subordinados e sobre as formas de reação de povos que sentem suas vidas invadidas. A analogia histórica 'coincidente' é muito inquietante..." (p. 12).
A abordagem contextual política de Horsley sobre Jesus, aliás, do ponto de vista do contexto da opressão romana, não pode subestimar o complexo universo ambiente cultural-religioso judaico da Terra de Israel. Afinal, foi nesse universo doméstico judaico do século I que Jesus exerceu o ministério e morreu crucificado. Portanto, se existe uma força inspiradora germinal no movimento criado por Jesus, este deve ser compreendido como uma característica de outros movimentos de seu tempo. A proposta abarca, nesse caso, o ideal da tradição popular do profetismo bíblico israelita, força arrebatadora que modelou a tom profético de seus protestos.
Conclui-se daqui, que o tom político na mensagem de Jesus não pode ser esvaziado de conceitos religiosos essenciais, como Reino de Deus, da mesma maneira que este conceito não está alienado de valores políticos.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Jesus, o Império e o Judaísmo - Parte I

I – Refazendo pressupostos: Jesus as fontes não-cristãs.
            
A identidade judaica de Jesus (aliás, uma premissa perturbadora para muitos cristãos desde muito tempo) desafia a muitos teólogos justamente quando estes ignoram a complexidade do judaísmo e suas transformações sofridas ao longo do período do Segundo Templo.
·         Os debates acadêmicos em torno do “Jesus histórico” lançaram agudas polêmicas acerca do ambiente-contextual em que viveu Jesus, demarcando novas fronteiras na pesquisa contemporânea. A primeira obra de vulto, de Hermann Samuel Reimarus (1694-1768), Os objetivos de Jesus e seus discípulos, publicada após sua morte, em 1778, inaugurou um campo totalmente novo que evoluiu para a assim chamada “Pesquisa do Jesus histórico”.
·         A primeira e mais completa obra investigativa sobre o Jesus Histórico apareceu em 1906, escrita pelo médico e missionário Albert SCHWEITZER (1875-1965). Durante quase dois milênios, até Reimarus, o NT permaneceu fonte inquestionável para uma possível história de Jesus (ver ENEXO I).
·         Entre as fontes extra-canônicas mais antigas (mas de relevância histórica contestável), pelo menos 4 são conhecidas por mencionarem Jesus e os cristãos. 1 – Suetônio (69-141 dC):
“Os cristãos, espécie de gente dada a uma superstição nova e perigosa, foram destinados ao suplício”... “O Imperador Cláudio expulsou de Roma os Judeus que viviam em contínuas desavenças por causa de um certo Cresto” (Vida dos doze Césares, XV e XXV(n.25,p.256-257).
2 – Plínio, “o Jovem” (62-112 dC), escritor pagão, mostra ser parcial na sua visão negativa sobre os cristãos, mas demonstrando um modo de retratar o ‘cristianismo’:
“Tinham o hábito de se encontrar em determinado dia antes do amanhecer, quando cantavam em versos alternados um hino a Cristo como se fosse um Deus, e obrigavam-se a si mesmos por um juramento solene a não praticar nenhuma má ação, a nunca cometer qualquer fraude, furto ou adultério, e nunca falsear a sua palavra, a nunca negar a confiança quando chamados a negá-la; depois do que, era seu costume se separar, e, em seguida, tomar parte de um alimento - mas alimento de natureza normal e inocente” - Carta a Trajano, Cartas X,97 (Citado por H.C. KEE, As origens cristãs. Paulinas, 1983. p.73-74.
3 – Tácito (55-120 dC).
“Para destruir o boato (que o acusava do incêndio de Roma), Nero supôs culpados e infringiu tormentos requintadíssimos àqueles cujas abominações os faziam detestar, e a quem a multidão chamava CRISTÃOS. Este nome lhes vem de CRISTO, que, sob o principado de Tibério, o procurador Pôncio Pilatos entregara ao suplício. Reprimida incontinenti, essa detestável superstição repontava de novo, não mais somente na Judéia, onde nascera o mal, mas anda em Roma, pra onde tudo quanto há de horroroso e de vergonhoso no mundo aflui e acha numerosa clientela” (Anais, XV, 44 trad. 1 pg. 311; 3).
·         O texto de FLÁVIO JOSEFO (37-100 dC) se tornou o mais polêmico de todos:
Por volta desse tempo, vivia Jesus, um homem sábio, se, com efeito, devemos chamá-lo homem. Pois ele era pessoa que praticava feitos surpreendentes, sendo daquelas pessoas que aceitam a verdade de bom grado. Ele conquistou muitos judeus e muitos gregos. Era o Messias. Quando Pilatos, depois de ouvi-lo acusado por homens do maior prestígio entre nós, o condenou a ser crucificado, aqueles que primeiro o haviam amado não renunciaram ao seu amor. No terceiro dia, ele lhes reapareceu ressuscitado, pois os profetas de Deus haviam profetizado esta e outras coisas maravilhosas a seu respeito. E a tribo dos cristãos, assim chamada por causa dele, não desapareceu até hoje” (Ant. XVIII,63-64) (o texto em negrito é questionado se foi escrito por Josefo).

·         Eis algumas questões que emergem dessas informações: Quem foi Jesus? Como viveu e o que ele ensinou teve relação com a sua morte? Sua execução explica o teor de sua mensagem?
·         Segundo HORSLEY, Jesus só pode ser compreendido dentro do contexto do imperialismo romano de sua época. Esta é, pois, uma premissa importante. Mas, e quanto ao contexto judaico? O próprio HORSLEY reconhece os efeitos desastrosos de uma teologia desencarnada, mergulhada num sensacionalismo piedoso, nutrido por uma grave falta de compromisso social e moldado por um espiritualismo inconseqüente. Expressões desse sentimentalismo espiritual exacerbado não só resistem como predominam nas igrejas cristãs atuais. As conseqüências de compreender Jesus como uma figura “meramente religiosa”, alienado do contexto político em que se povo viveu, encorajaram leitura fundamentalistas que o despolitizaram. Ao desligar Jesus de sua crença, de sua tradição religiosa e dos graves problemas sociais causados pela ocupação imperial romana na pátria judaica.
·         Com a visão despolitização da ação de Jesus, ficou fácil sua “domesticação”.

terça-feira, 24 de maio de 2011

ÉTICA DA ESPIRITUALIDADE - Parte II

1.                  A Ética da Espiritualidade em Abraão.
Abraão desenvolveu uma espiritualidade cujo resultado seria a benção de Deus sobre todas as nações, as ações de sua vida resultavam no cuidado com o outro, como quando socorreu Ló, as mulheres e o povo da guerra contra os reis cananeus (Gn 14.1-17). Quando intercede a Deus por Sodoma e Gomorra, cidades extremamente profanas, ainda assim, para ele é possível encontrar justos num ambiente tão profano, sem temor ou reverencia a qualquer lei instituída (Gn 18.22-37). O que nos chama bastante atenção neste capitulo é o que está relatado no verso dezenove: porque Eu o escolhi (Abraão) para que ordene a seus filhos e a sua casa depois dele, a fim de que guardem a justiça (Tsedeká) e o juízo (Mishpat)... O detalhe desta passagem é que a Torá somente foi dada a Moisés 430 anos depois do período em que Abraão viveu (Gl 3.17). Deus determinou que Abrão e seus filhos vivessem, antes da entrega da Lei baseados em dois preceitos éticos a tsedeká e mishpat. Ou seja, sua conduta estaria fundamentada em obras que expressassem ajuda ao necessitado e atitudes de respeito ao outro, ainda que estranho a sua fé e conduta moral.     
O auge de sua espiritualidade pode ser vista na sua hospitalidade para com estranhos (Gn 18. 1-15), acredito que exista um paralelo muito grande entre este episódio narrado em Gênesis e o relato do julgamento do último dia narrado em Mateus 25. 31-16. Assim em Abraão a espiritualidade é prática, voltada para o semelhante e nunca em prol de si mesmo. Desta forma, a um contraste muito grande entre a espiritualidade apresentada na Bíblia em comparação com a prática da espiritualidade individualista desenvolvida nos dias atuais.

2.      A Ética da Espiritualidade em Moisés. 
Podemos começar a pensar na ética mosaica, quando Moisés identifica-se com o destino de seu povo, ao preferir viver como hebreu, refugiado no deserto, por matar um egípcio que maltratava seu irmão social, do que viver no apogeu e mordomia do palácio real. Uma renuncia de riqueza, honra, prestigio sem proporções iguais na história bíblica. Outro bom exemplo de ética para com o semelhante pode ser vista ao defender as filhas de Reuel, quando estas eram maltratadas pelos pastores daquela região, ao tentarem tirar água para os rebanhos de seu pai, mesmo não as conhecendo, ele defende os seus direitos (Êx 2.15-22).
Moisés é chamado por Deus para prestar serviço ao semelhante escravizado, para libertá-lo do opressor, que domina o povo com rigor excessivo (Êx 3.7-10). Mas não somente para isto, após a libertação do Egito, esse líder será responsável por levar ao povo as Leis de Deus, essas leis não são apenas os dez mandamentos, mas um código ético baseado em justiça, retidão e responsabilidade, sendo assim, temos leis que regulamentam o serviço cúltico (Êx 20.22-26), leis que protegem o escravo (Êx 21.1-11), leis contra a violência cometida aos pais (Êx 21.12-36), leis acerca da propriedade (Êx 22.1-15), que protegem os órfãos, viúvas, necessitados e estrangeiros (Êx 22.16-31; Lv 25.35-38; Dt 15.7-11), leis para o estabelecimento de juízes justos, que não aceitam suborno (Dt 16.18-22). Entre outras tantas leis éticas, porém entre todas essas leis destaco a lei do Jubileu (Lv 25.8-34) como auge “de uma sociedade igualitária, idealizada com base na justiça, solidariedade e igualdade social” (Scardelai, 2011).          
O cristão moderno não gosta muito estudar ou pensar sobre as leis bíblicas, sua principal justificava teológica é afirmar que Jesus cumpriu toda Lei, sendo assim, ele está livre da guardar determinadas leis bíblicas. No entanto, um olhar cuidadoso em Mt 5.17, veremos que Jesus não veio revogar a Torá, mas planificá-la, ou seja, dar um sentido maior, resgatar a essência de sua aplicabilidade. Então se fossemos estudar a Torá com o intuito descobrir seus princípios éticos, teríamos que compreender suas divisões; que segundo o rabino Hirsch (2002, p.79,80) estaria divida em:
A) Instruções e doutrinas (Torot): as revelações historicamente relativas a Deus, ao mundo e à missão da humanidade e de Israel, não como mera doutrinas de fé ou filosofia, e sim como princípios a serem reconhecidos pela mente e coração e seguidos durante a vida (Êx 20.2). Estas leis nos ensinam quais as obrigações de todos os seres, inclusive do homem, que necessita aprender a se considerar como um dos assistentes de Deus que voluntariamente reúne-se ao conjunto de seres ao seu serviço (Dt 4.19-20). A função de nossa experiência é educativa (Dt 8.2-3); o temor a Deus deve ser ensinado a nós pelo reconhecimento de sua ilimitada grandeza, infinita misericórdia, bondade e inabalável lealdade (Dt 4.40; 7.9);
 B) Julgamentos (Mishpatim): expressões de justiça relativas a criaturas iguais a nós e baseadas neste principio de igualdade, ou expressões de justiça para com os seres humanos. Sendo assim, respeite cada ser ao seu redor e tudo o que traz dentro de si como uma criação de Deus, tudo o que pertence aos outros, respeite como algo que lhe foi concedido por Deus, ou adquiridos de acordo com a Lei sancionada por Ele, não seja fonte de prejuízo para os outros (Êx 20.13, 17).
C) Estatutos (Chukim): a mesma consideração que você tem pelo homem é devida também às entidades inferiores, como a terra, que é a base e fonte de todo o sustento, com o mundo vegetal e animal, com seu próprio corpo, suas faculdades mentais, sua personalidade. Os Chukim requisitam que olhemos para todos os outros seres como uma propriedade de Deus, para que não aniquilemos, não abusemos deles ou acabemos por desperdiçá-los, em lugar de usá-los com sabedoria (Dt 20.19, Êx 23.5; Lv 19.19).
D) Mandamentos: (Mitsvot): princípios de amor relativos a Deus e a todos os seres sem distinção, e explicados unicamente pela obediência devida a Deus, em consideração à nossa chamada como amados do Eterno (Dt 6.4-9; 5.16).

3.      A Ética dos Profetas versus a Ética Sacerdotal.
 Quando pensamos em ética profética estamos querendo na verdade fazer relação ao conteúdo das mensagens dos profetas bíblicos e aos valores morais e sociais da sociedade de seu tempo que deveriam ser articulados e pretendidos a partir do pensamento e atitudes contempladas em Moisés. Sobre isso afirma Scardelai (2008) “a força da religião mosaica irrompem-se como ideologia popular ao imprimir uma clara inversão de valores na ordem de valores da pirâmide social”. Pois Moisés estava situado na base inferior do estrato social egípcio, ao se colocar como defensor dos escravos hebreus.
Assim a religião bíblica está fundamentada sobre a Torá mosaica, que tem como valores essenciais; o direito e a justiça social como base para sua conduta ética:

O monoteísmo ético israelita está solidamente edificado não apenas sobre códigos ou doutrinas religiosas e espirituais das leis bíblicas, mas sobre a pregação enfática dos profetas bíblicos em favor da justiça social e de seus efeitos na sociedade. A ética encontra-se estreitamente relacionada ás questões políticas urgentes e à justiça social, valores que norteiam a conduta coletiva do povo e da nação israelita (Scardelai, 2008, p.35).        
                              
        A ética dos profetas, desta forma, estaria em contraste constante com a conduta e a postura adotada pelos lideres sacerdotais que muitas vezes se voltavam apenas para os aspectos prescritivos do culto, e não entendiam as emergências sociais da camada do povo, essa máxima pode ser sentida na clássica passagem contida no livro de Oséias: “misericórdia quero, e não sacrifício, e o conhecimento de Deus, mais do que holocausto”. Com a adoção de uma postura distante da demanda popular, muitas vezes os sacerdotes se colocavam ao lado dos grandes latifundiários, o que agrava ainda mais a situação política e social do povo. Por isso a base dos “ensinamentos dos profetas denunciavam os pecados éticos e morais de Israel: opressão, fraude, roubo, mentiras e tantas outras mazelas associadas às injustiças sociais” (Scardelai, 2008, p.69).
Contudo é de suma importância não esquecermos a figura dos profetas do Estado, que eram aqueles indivíduos, que viviam à custa do Estado, da mesa do Rei, e que por isso nunca jamais, levantavam sua voz em favor dos pobres e oprimidos. Para esses a ética consistia no beneficio próprio, dentre os exemplos desse tipo de comportamento, temos Balaão, que por dinheiro estava disposto a mudar suas palavras e sua postura frente à vontade de Deus (Nm 22-24).
Podemos, então, pensar que a ética dos profetas não consistia de um apelo religioso vazio, baseado apenas em valores cúlticos sem significado, apenas para cumprir mera cerimônia religiosa.

Os profetas nos alertaram contra diferenciar o sagrado e o bom; diferenciar entre nossos deveres para com Deus e nosso próximo... há aqueles para os quais servir a Deus significa se voltar para a própria alma, ir à casa de oração, levar uma vida de oração e rito. Para outros, a justiça social é substituto da observância religiosa ou de Deus... mas a mensagem da Bíblia é a de que servir a Deus e a próximo são ações intrinsecamente ligadas, não devendo separá-las (Sarks, 2007, p.21).          

Neste aspecto, poderíamos comparar a ética ensinada por Jesus, como sendo bem próxima a dos profetas (Is 1.17), pois quando ele relata a parábola do bom samaritano, ele deseja enfatizar que ajudar ao necessitado é mais importante que subir ao Templo para oferecer sacrifícios (Lc 10.25-37). Desta maneira. Ele se aproxima bastante do conceito ético de valorização da vida das pessoas ensinada pelos profetas. 

domingo, 8 de maio de 2011

PROJETOS SOCIAS PARA IGREJAS




Mateus 6.34, diz: Ao desembarcar, viu Jesus uma grande multidão e compadeceu-se deles, porque eram como ovelhas que não têm pastor. E passou a ensinar-lhes muitas coisas. Esse versículo sempre mexeu muito comigo, desde a minha juventude, quando tinha cerca de 17 anos, eu e outros colegas ficávamos a pensar o que poderia ser feito para melhorar a vida dos outros a partir de uma iniciativa e visão cristã. Contudo, na verdade passou-se o tempo e não conseguimos realizar nada do que havíamos pensado, ficou apenas no pensamento, nunca se tornou prático, ou seja, não passou de um simples e abstrato pensamento.
Atualmente esses pensamentos me têm novamente perturbado, quero viver um Evangelho prático, que não esteja somente preocupado com o teórico, o abstrato, quero fazer algo de significativo que transforme pessoas, que seja capaz de mudar sua realidade, mas então surge uma pergunta, como fazer isso? Sinceramente ainda não sei a resposta, tenho buscado-a, mas é difícil encontrar, pois o meio em que vivo, relaciono-me e prego dificilmente faz esse tipo de reflexão. O mundo tornou-se tão rápido, dinâmico, competitivo, individualista que não temos mais tempo para pensar nas outras pessoas, ficamos distraídos por essa realidade de ilusão sombria que estamos vivendo. Talvez por isso, o número de pessoas que buscam significado para suas vidas tenha aumentado, e como não conseguem atingir esse patamar de busca se frustram e se destroem.
Esse quadro que descrevi se assemelha muito com o texto descrito por Mateus, uma multidão que anda de um lado para o outro em busca de algo, como ovelhas sem pastor. Então penso que a solução é dada nesse mesmo texto, mas de que forma? Primeiro Jesus passa a ensiná-las. Toda mudança começa com o ensino comprometido, que seja capaz de mudar circunstancias adversas. Ensino para mim é sinal de reflexão, de busca por compreensão e mudança de realidades a partir de um pensamento lógico, organizado, sistemático, comprometido com a praticidade transformadora.
Em seguida o texto de Mateus nos revela que os discípulos ficaram preocupados com a situação das pessoas, e queriam que Jesus as despedisse a fim de que encontrassem comida, pois o lugar era deserto. Neste exato momento Jesus quebra toda lógica humana descomprometida, ou melhor, comprometida apenas com o pensar, e diz: por que vocês mesmos não dão de comer a essa multidão? A resposta é lógica como faremos isso com tão pouco recursos? Nessa hora meus amigos, começa um dos milagres mais extraordinários do Novo Testamento, a multiplicação dos recursos escassos. Muitos pensam que o milagre aconteceu como num passo de mágica, mas não foi assim!
Primeiro Jesus organizou a multidão em grupos de cem e de cinqüenta, demonstrando que é preciso haver uma sistematização, uma organização que seja prática e eficaz. Então um projeto de mudança social radical, não deve ser assistencialista, imediatista, realizado apenas com o intuito de aliviar a consciência de quem o executa. Mas deve ser pensado e elaborado, para que possa realizar mudanças estruturais, e não apenas paliativas.
No segundo momento, Jesus toma os recursos escassos, levanta-os aos céus e os abençoou, ou seja, as provisões dos recursos não acontecem por um esforço humano, por melhor que ele seja, mas por uma provisão divina, uma graça misericordiosa, que abunda e transforma o pouco em muito. Após isso, vem o terceiro passo, a distribuição para quem necessita. Primeiro para crianças, pois o risco de vida para elas era maior devido às condições inóspitas do local, que desencadearia possíveis desidratações, em segundo os idosos pelos mesmos motivos e grávidas caso houvesse na multidão, em terceiro as mulheres, em quarto os homens, e por fim os discípulos. Com isso o milagre foi estabelecido, testemunhado e vivido por todos aqueles que ali estavam.
Quero agora que voltemos um pouco à ordem da distribuição que coloquei acima: crianças, grávidas e idosos, mulheres, homens e por fim os discípulos. Essa é uma ordem estrutural básica para qualquer projeto social, sendo assim, tente começar um projeto a partir desses grupos, de preferência foque em um no inicio.
Agora passarei a falar de alguns projetos que pesquisei e achei legal colocar aqui: o primeiro que destaco é o Programa de Atendimento Interdisciplinar em Ambiente Extra-Clínica; que tem como objetivo levar às comunidades escolares com populações carentes um atendimento multidisciplinar in loco. Este programa é focado na prevenção, estimulação e capacitação para melhorar o desenvolvimento emocional, cognitivo e psicomotor do individuo, visando facilitar o aprendizado formal e diminuir a evasão escolar.
Outro seria a Oficina Pedagógica: atendimento a alunos com dificuldade de acompanhar o ensino formal. Essa atividade é um apoio ao desenvolvimento da escolaridade e cidadania. Também neste programa são realizadas palestras visando auxiliar professores e pais, esse projeto poderia ser realizado em parceria com universidades que desenvolvem programas de extensão.
Atendimento em grupos: visa estimular à criação de grupos de idosos, onde se realizaria encontros semanais, em que se desenvolveriam atividades físicas, de danças, atividades sócio-culturais e artes, bem como programas de alfabetização para adultos. Também outro grupo que se poderia criar seria o de atendimento a grávidas, neste seria dado palestras, atendimentos médicos e sociais. E ainda a criação de um grupo que poderia ser voltado para educação de jovens, onde se reforçaria os estudos das disciplinas de português, matemática, biologia, química, física e outras disciplinas. Enfim as possibilidades são enormes, basta boa vontade, organização e envolver os membros das igrejas nestes programas.                            
                 
        

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Questão de Saúde Pública!


Anvisa discute proposta de proibição dos anorexígenos no Senado


5 de maio de 2011
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) voltou a discutir, na segunda-feira (2/5), a proposta de retirada do mercado dos medicamentos anorexígenos do tipo anfetamínicos (anfepramona, femproporex e mazindol) ou à base de sibutramina. O assunto foi debatido em audiência pública na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado Federal, por iniciativa do senador Paulo Paim (PT-RS).Durante a audiência, o diretor-presidente da Anvisa, Dirceu Barbano, lembrou que os produtos do tipo anfetamínicos não existem na Europa desde 1999 e que a subtramina foi retirada do mercado norte-americano pelo próprio fabricante após a conclusão do estudo SCOUT, que durou seis anos e envolveu cerca de dez mil pacientes.“Se o laboratório que registrou o produto optou pela sua retirada, como fica a situação das agências reguladoras? Seremos menos rigorosos que a própria Abott ?”, indagou Dirceu Barbano.Em relação à eficácia da substância, o SCOUT concluiu que apenas 30% das pessoas tratadas com sibutramina perderam pelo menos 5% do peso após três meses. Por outro lado, essas pessoas registraram um aumento de 16% no risco cardiovascular.Também participaram da audiência a diretora da Anvisa, Maria Cecília Brito, o representante da Sociedade Brasileira de Cardiologia, Geniberto Paiva Campos, a representante da Associação Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Rosana Bento Radominski e o coordenador Executivo da Sociedade Brasileira de Vigilância e de Medicamentos (Sobravime), José Rubem de Alcântara Bonfim, também representando o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) na ocasião.Para José Rubem, “o fato desses medicamentos apresentarem um consumo crescente no Brasil quando estão proibidos em várias outras partes do mundo só pode se explicar pelos interesses econômicos das indústrias”.Por sua vez, a endocrinologista Rosana Bento Radominski defendeu um maior controle sobre essas substâncias e não a proibição das mesmas.Ao falar sobre a pressão social para que as pessoas sejam belas, elegantes e magras, Geniberto Paiva Campos, da Sociedade Brasileira de Cardiologia, ressaltou que  “alguns remédios têm certo conteúdo mágico, o que deixa a população num nível de expectativa muito grande”. Ainda, segundo ele, “as proibições, embora não pareçam muito simpáticas, são necessárias”.O presidente da Comissão, senador Paulo Paim, afirmou que a discussão do assunto será aprofundada em nova audiência pública, que deve ser realizada em parceria com a Subcomissão Permanente de Promoção, Acompanhamento e Defesa da Saúde (Cassaude)  no dia 31de maio às 9h.


*Com informações da Agência Senado
Luana Cury - Imprensa/Anvisa